...ou como escutar drama alheio em outra língua.
A última manhã no albergue em Veneza foi tranquila. Tivemos a oportunidade de ver os novos hóspedes do quarto ao lado. 4 garotas, provavelmente americanas de alguma faculdade que viajaram juntas (e já aprontaram, pois na noite anterior já tinha um rapaz no quarto com elas e durante a manhã uma delas saiu correndo da mesa passando mal). Interessante que elas não ficaram acanhadas com a nossa presença na mesa e saíram conversando, mas quando eu fui falar com a Meg em inglês, elas ficaram quietas. Acho que não imaginavam que aquelas caras de latinos nossa falariam inglês (fato curioso: até o momento ninguém achou que falavamos espanhol quando diziamos ser do Brasil, ao contrário do que ocorreu comigo em 2009 no leste europeu) e ficaram quietas pensando no que poderiam falar ou não. Outr fato interessante é que Meg agora já fala diversas palavras em português, graças ao empenho de minha mãe em não querer conversar com o pouco de inglês que ela sabe.
Saíndo de Veneza. Pelo menos de dia podiamos apreciar um pouco melhor a paisagem. Muita neblina no caminho. Impressionante como a neblina realmente pegou por aqui. Outra coisa impressionante é o fato de eu comprar duas poltronas juntas e a máquina de bilhetes nos dar duas poltronas uma de cada lado do corredor. Bom, como o trem não costuma encher mesmo, arriscamos. Na verdade, acabou aparecendo pessoas para as poltronas marcadas, mas por aqui o pessoal não se importa com isso não. Se tiver outras poltronas por perto eles preferem não ter o trabalho de discutir e sentar em qualquer lugar mesmo. Além do mais, era uma viagem de pouco mais de 1 hora e meia. Nada dramático....
...até chegar em Milão.
Milão está se mostrando uma cidade que nos traz aventuras nos trens. Dessa vez não foi diferente. Não querendo arriscar problemas com conexão, resolvemos deixar para comprar as passagens para Genova por aqui. Para não entrentar a longa fila que já imaginava que teria nas bilheterias, achei os guichês automáticos e comprei duas passagens lado a lado. Pelo menos foi o que pensei ter feito. Esse sistema de auto-atendimento é rápido e prático, porém, existe um pequeno detalhe. Você pode até escolher o assento que quer, mas tem uma mensagem informando que caso não esteja disponível aquele assento escolhido, o sistema escolhe pra você. O problema que só se descobre se conseguiu ou não depois da compra, ao se imprimir os bilhetes. Resultado: nossos assentos não pareciam ser lado a lado (a menos que a lógica ilógica dos assentos que ja vimos, como por exemplo 33 ser ao lado de 38, ter um assento número 15 e outro 32 não seria lado a lado).
Eu havia me esquecido como eram os trens Intercity (entre cidades). Esses trens são cabines com dois bancos de frente ao outro e cabem 2 pessoas por banco (1a classe) ou 3 pessoas (2a classe). Existe um pequeno adesivo na porta indicando quais assentos em cada cabine e sua disposição. De fato, um dos assentos era na primeira cabine e outro 2 cabines depois. Não tinha outro jeito. Tivemos que ficar separados, ainda mais que o trem estava enchendo bastante (era um trem que ia de Milão para La Espezia e parava em várias outras cidades, portanto devia encher de fato).
Minha mãe ficou na cabine mais pro meio, já que o assento era do corredor. Depois da viagem ela contou que havia um homem de terno e gravata que parecia querer estar na 1a classe (mas teve que ficar a contra-gosto na 2a) e não queria nada na cabine atrapalhando a paz e a ordem. Olhava feio se alguém pegasse um sanduíche (que eu fui na cabine pegar um na bolsa de minha mãe) e nem fazia questão de dar licença para as pessoas passarem (queria ter trocado de lugar com ela). Por precaução, resolvi sentar no assento do corredor de minha cabine, para poder chegar até minha mãe mais rapidamente em caso de problemas. Na verdade, isso foi impulsionado pelo fato que quando voltei, existia um casal de senhores e um deles sentado na minha poltrona oficial que era na janela. Quando fui falar com a minha mãe e voltei, outro rapaz estava na outra poltrona no corredor que eu intencionava sentar. Sentei de frente a ele, na outra poltrona do corredor. Bagunça total. Depois descubro que o casal de senhores tinham passagens, mas sem lugar marcado. Simplesmente pegaram o primeiro lugar vago que encontraram. Mas nem eu nem o outro rapaz (que visivelmente era do outro assento ocupado) nos importamos com isso. Mas acabou chegando uma moça já dizendo que o assento ocupado pela senhora era dela e botou os dois pra correr (não exatamente assim, mas ela não estava a fim de ficar em outro assento e fez questão de mostrar isso). Vai o casal de senhores procurar outros lugares em outro vagão e vai assim começar uma longa viagem sonora...
Para não perder a parada em que tinhamos que saltar, eu precisava tanto ficar atento ao locutor anunciando as paradas, quanto resistir ao imenso sono que estava tendo. No troca troca de assentos, o rapaz que antes estava de frente para mim foi pra janela, uma outra senhora com problemas numa das pernas sentou diante de mim e um senhor africano (sejamos politicamente corretos) sentou no meio. Aliás, ele foi o único que nem quis saber e colocou as próprias bolsa no assento vago. Até aí, sem problemas. Mas começou o drama mexicano.
Aquela tal que havia chegado e posto o casal de senhores pra correr, sentou e já foi para o celular. Começou uma longa conversa com alguém e isso em uma língua que não consegui identificar. Não era italiano. Parecia alguma lingua eslava (conheço russo e ucraniano o suficiente para reconhecer, mas apesar de ter uma ou outra palavra conhecida, não era nenhuma das duas. Talvez bielorusso ou até búlgaro) e ela começou a se exaltar e se mostrar estressada com a conversa. Isso durante a viagem toda. Uma hora e meia de discussão sobre alguma coisa pessoal e em voz alta. Os demais da cabine irritados e eu me controlando para não abrir a janela e dar um fim ao celular. Ainda mais quando ela começou a falar chorando. Aí sim tornou a viagem mais torturante.
Felizmente uma hora e meia passou rápido. Era para termos saltado do trem em Genova Principe, mas vi pelo mostrador e de acordo com o locutor que o trem pararia em Genova Brignole (parada mais perto do albergue). Não tinhamos passagem para lá, mas como o bilheteiro já havia passado, quem se importa? Saltamos e deixamos para trás toda a novela internacional. Comentando com minha mãe, ela disse que de fato havia escutado uma mulher falando alto, mas achava que eram duas pessoas conversando em outra cabine.
Outra coisa boa era que o albergue ficava uns 10 minutos caminhando (passo relativo com minha mãe e malas para puxar) da estação de trem. Tudo bem que precisava subir uma ladeira e o albergue era no segundo piso e não tinha escadas, mas isso aí já to acostumado. Sou eu mesmo que tem que ficar levando malas escada acima, escada abaixo. O quarto parecia coisa de luxo. Com móveis do tempo de nossos bisavós e até tv LCD e máquina de fazer chá ou café disponível. Nem parecia albergue. Depois de uns 40 minutos do dono do albergue me explicar todos os principais pontos turísticos da cidade (com a ajuda de um mapa que ele deixou todo rabiscado) e o que tinha de interessante na cidade (wikipedia pra quê?), resolvemos dar a primeira volta na cidade, reconhecer os arredores e ver no que vai dar.
1 de novembro de 2011
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